As sandálias mais feias do mundo    expresso 15.8.03 3080 z.

 

De repente, tornaram-se uma febre chique deste Verão. O segredo das velhas Birkenstock é o conforto.

O que têm em comum os jovens berlinenses idealistas de Maio de 68, os pacifistas da década de 80 e os membros do movimento Attac que hoje protestam menos pacificamente contra a globalização? Provavelmente apenas isto: as sandálias ortopédicas da marca Birkenstock. Hoje em dia, porém, elas já não são obrigatoriamente acompanhadas (como acontecia com os contestatários e «hippies» alemães) por meias de lã terrivelmente grossas, tricotadas durante as discussões infindáveis em que também se tricotavam soluções para os males do mundo.

Chamam-lhes «as sandálias mais feias do mundo». São sólidas, pesadas, geralmente enormes (já que, segundo Lobo Antunes, «os alemães têm mãos do tamanho de pés, e pés do tamanho de barcos») e muitíssimo confortáveis. Por qualquer enigma inexplicável, transformaram-se subitamente no grande negócio deste Verão. Seja em Paris ou em Londres, as Birkenstock (que além de serem feias são caras!) vendem-se como pãezinhos quentes.

A procura é tão demencial que algumas lojas da londrina Oxford Street receberam ordem para só venderem um par a cada cliente. E nas lojas para turistas ao pé da catedral de Colónia ou do castelo de Neuschwanstein, na Baviera, elas aparecem nas montras ao lado dos relógios de cuco e das canecas de cerveja com tampa de estanho - os melhores símbolos da Alemanha, na opinião de texanos e japoneses.

PALMILHAS

DO SÉCULO XIX O segredo é o conforto. As sandálias começaram a ser fabricadas perto de Bona, no remoto ano de 1774, pelo sapateiro Johann Adam. Mas foi no fim do século XIX que um dos seus descendentes, Konrad Birkenstock, teve a ideia de as dotar de uma palmilha anatómica que é um autêntico tratamento para os pés cansados. O «slogan» da empresa é sugestivo: «Concebida pela natureza, fabricada por nós».

Durante muito tempo, o comprador era obrigado a escolher entre o negro triste e o castanho deprimido; mas há anos começaram a aparecer novos modelos, de cores berrantes e formas inovadoras. A palmilha é que não mudou, ela é o melhor argumento da marca. De repente, passou a ser chique usar Birkenstock. E, da supermodelo Heidi Klum à Rainha de Inglaterra, passando por Robin Williams e Whoopi Goldberg, «todos têm». Mesmo que alguns modelos mais raros cheguem a custar 250 euros.

A Birkenstock fazia também parte do grupo de firmas e marcas claramente identificadas como alemãs (outros exemplos: cutelaria de Solingen, chocolates da Ferrero, óculos Rodenstock, bichos de peluche da Steiff, livros da Bertelsmann, carros Mercedes, BMW, Audi e Porsche) que alguns grupos conservadores mais exaltados nos EUA queriam boicotar, pelo facto de a Alemanha não se ter aliado a Bush na cruzada contra o Iraque. Mas esses apelos não encontraram eco junto do grande público, que continuou a comprar as suas marcas preferidas como continuou a beber vinho francês.

A firma é muito discreta, não gosta de alardear números e estatísticas, mas sabe-se que se vendem quase 9 milhões de pares por ano, mais de 40% dos quais destinados ao estrangeiro; e que o volume de negócios ronda os 250 milhões de euros.

A terminar, uma pergunta fácil: nos sítios onde se ouvem simultaneamente todas as línguas do mundo numa confusão babilónica, por exemplo na Torre Eiffel em Paris ou no «Ground Zero» de Nova Iorque, como distinguir, entre a multidão dos turistas calçados com Birkenstock, os verdadeiros alemães? É muito fácil: são os únicos que usam sandálias com meias, mesmo no pino do Verão, mesmo com 40 graus à sombra.