ABÁ NHE’ENGA OÎEBYR;TRADUÇÃO: A LÍNGUA DOS ÍNDIOS ESTÁ DE VOLTA

O tupi ressurge em páginas de livros, telas de cinema e pode chegar às salas de aula                 Por Suzel Tunes

Na medida em que se aproximam as comemorações dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, o país volta-se às suas raízes mais profundas e redescobre, entre curioso e encantado, o seu primeiro idioma nacional: o tupi. Livros de tupi estão chegando às livrarias, cursos atraem cada vez mais estudantes. Uma recém-fundada organização não governamental, a Tupi Aqui, já propõe a inclusão do idioma no currículo do segundo grau. E, no ano que vem, o público brasileiro poderá assistir a um filme todo falado em tupi, o Hans Staden, com a participação de atores famosos como Stênio Garcia, Sérgio Mamberti e Cláudia Liz.

Boa parte desses projetos deve-se ao esforço pioneiro de Eduardo de Almeida Navarro, professor da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, a única em todo o país que oferece curso de tupi antigo, também chamado tupi clássico. Em sua cadeira universitária, Navarro também está sozinho. Ele é o último dos tupinistas, solitário especialista de uma língua que, até o século 18, era falada por todos os habitantes do país, incluindo portugueses e africanos.

Por conta do sonho de manter viva a cultura tupi, o professor Navarro, fundador da ONG Tupi Aqui, já foi apelidado até de Policarpo Quaresma, nome do idealista personagem criado pelo escritor Lima Barreto. No livro de Barreto, Quaresma chegou a ser internado em um hospício, ao tentar fazer do tupi a “língua oficial e nacional do povo brasileiro”. Navarro diverte-se com a comparação: “Não sou tão utópico assim”, garante. Sua modesta proposta é de que, até o ano 2005, o idioma seja incluído inicialmente nos currículos das escolas de São Paulo. E, para essa empreitada, ele já tem seguidores: seu discípulo mais fiel é o jovem professor Hélder Perri Ferreira, um ex-aluno que agora participa dos projetos do mestre. Foi ele o revisor do livro que Eduardo Navarro acabou de lançar, o Método Moderno de Tupi Antigo — A Língua do Brasil dos Primeiros Séculos. Concebido como um manual didático para leigos, o livro ensina tanto a escrita quanto a fala tupi, por meio de notações fonéticas simples, que praticamente dispensam a presença do professor. “No futuro, pretendo preparar uma fita cassete com a leitura dos textos de todas as lições”, promete Navarro. Hélder também participou da organização de outro livro recente de Navarro, o Poesias — Lírica Portuguesa e Tupi, com traduções dos poemas escritos na língua indígena pelo padre José de Anchieta.

Para difundir a língua e cultura tupi, Navarro e Hélder também estão organizando cursos livres, com duração de seis meses, extensíveis a um ano e meio. No ano passado, Hélder já ministrou esse curso a uma turma de 120 alunos de diferentes idades e formações escolares que se reuniam no Páteo do Colégio, no centro de São Paulo, o mesmo lugar onde, entre 1554 e 1562, o padre José de Anchieta ensinava as crianças indígenas em seu próprio idioma. Agora, o curso está sendo realizado no Instituto Cultural Itaú, nome que, aliás, é de origem tupi: significa pedra preta — itá (pedra) mais un (preto). O engenheiro Franklin Evrard, aluno da primeira turma, prossegue no estudo da língua até hoje. “Comecei por curiosidade e interesse por toponímia, o estudo da origem dos nomes dos locais. Entusiasmei-me com o estudo e pretendo colaborar para que essa herança cultural não desapareça. No futuro, quando me aposentar, pretendo dar aulas de tupi”, diz ele.

Além dessas iniciativas dos professores da USP, pipocam (que é outra palavra de origem tupi) outros projetos. Recentemente, a editora Melhoramentos, junto com a editora da Universidade de Brasília, lançou o livro Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi, do lingüista Antônio Geraldo da Cunha. Outros dicionários, pelo menos um de tupi-português e outro de toponímia (origem de nomes geográficos) estão vindo por aí.

A quem pergunta que interesse teria o estudo de uma língua morta, uma vez que o tupi clássico não é falado mais nem pelos índios, o professor Eduardo Navarro explica: “O estudo do tupi antigo tem interesse histórico, geográfico e literário. Nenhuma outra língua indígena foi tão importante para a constituição de um Estado nacional. Estudar o tapirapé ou xavante, bororo ou kamayurá atuais não explicariam nomes como Pernambuco ou Sergipe. Assim como em Portugal o adstrato, ou seja, a língua que coexistiu com o português e influenciou-a, foi o árabe, no Brasil foi o tupi”. Segundo ele, em nosso idioma, existem mais de 10 mil tupinismos, ou seja, palavras de origem tupi (leia quadro ao lado).

Língua geral

Navarro esclarece que o termo tupi, embora popular, não é estritamente correto. O idioma que ele ensina, falado nos dois primeiros séculos de colonização do Brasil, é, na realidade, conhecido pelos especialistas como língua brasílica, da qual o tupi era um de seus dialetos. Já no século XVI, a língua brasílica começou a ser aprendida pelos portugueses que, de início, eram minoria entre os índios, numa proporção de 10 para 1. “Como grande parte dos colonos vinham para o Brasil sem mulheres, os portugueses passaram a viver com mulheres indígenas”, explica o professor. “Assim, a língua brasílica passou a ser a língua materna de seus filhos, especialmente nas áreas mais afastadas do centro administrativo da Colônia, que era a Bahia. Era língua comum entre os portugueses, descendentes, e também seus escravos, inclusive os africanos.” Mas é claro que a influência da cultura européia e africana seria logo sentida pela língua indígena. De fato, a partir da segunda metade do século XVII, a língua brasílica sofreu várias modificações, passando a ser chamada de língua geral, que foi falada até 1758. Considera-se este ano como o da morte do tupi no Brasil. Foi quando o Marquês de Pombal, em nome do rei Dom José I, proibiu o ensino e o uso do tupi em todo o território nacional, instituindo o português como única língua do Brasil.

Seu objetivo era puramente político: esvaziar o poder dos padres jesuítas, que se aproximavam cada vez mais dos índios, aprendendo e ensinando no idioma nativo. “Até Pombal, de cada três habitantes, dois só sabiam língua geral e um era bilíngüe, falando também o português. Em 50 anos de proibição, o efeito destruidor foi notável”, lamenta Navarro.

Dois idiomas

Não fosse o decreto de Pombal, o Brasil hoje seria, provavelmente, como o Paraguai, em que coexistem dois idiomas. “Lá o processo histórico foi diferente”, esclarece o professor. “Não houve esse rompimento tão abrupto com a Igreja Católica e as missões jesuítas conservaram o guarani.” Exatos 240 anos após o fatídico decreto de Pombal, quem sabe não se verá agora o renascimento da língua que unificou o povo brasileiro até o século XVIII. Tupã, deus do raio e do trovão, diria, certamente: Ko’yr xe r-oryb-amo. ”Agora eu estou feliz.”

 

Anote

Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi, de Antônio Geraldo da Cunha, com prefácio de Antônio Houaiss, Editora Melhoramentos/UnB

Método Moderno de Tupi Antigo — A Língua do Brasil dos Primeiros Séculos, de Eduardo Navarro, Editora Vozes

Poesias — Lírica Portuguesa e Tupi, tradução de Eduardo Navarro e organização de Hélder Perri, Editora Martins Fontes.

Curso de tupi. Informações com Hélder Perri, pelo (011) 818-4841.

 

O alemão e os índios no cinema

Quem quiser ouvir como se fala o tupi antigo terá essa oportunidade no ano que vem, quando chegar às telas de cinema o filme Hans Staden, do diretor Luiz Alberto Pereira. Todo falado em tupi, o filme conta a emocionante — e verídica! — história do marinheiro alemão que naufragou na costa brasileira, na altura de São Vicente, São Paulo, em meados do século 16. Salvo do naufrágio, Hans Staden passou a viver com os portugueses habitantes da região, até ser aprisionado pelos tupinambás de Bertioga, em 1554. Para seu azar, os tupinambás eram inimigos dos portugueses e pensaram que Staden também fosse português. Por conta dessa confusão, ele quase foi morto em um ritual antropofágico. O alemão sobreviveu, mas, durante os meses em que esteve cativo, pôde presenciar o tratamento que os ferozes tupinambás reservavam aos inimigos: eles eram esquartejados e devorados pelos membros da tribo.
Hans Staden acabaria sendo salvo pelos franceses, com os quais os tupinambás tinham firmado aliança. Resgatado pelo navio francês Catherine de Vetteville, ele partiu de volta para sua pátria e, em 1557, publicou um livro sobre suas aventuras no Brasil.

Para filmar essa história, os atores Carlos Evelyn (no papel de Staden), Sérgio Mamberti, Stênio Garcia, Cláudia Liz, Beto Simas, Darci Figueiredo, Milton de Almeida, Ariana Messias e Carol Li, entre outros, tiveram que aprender a falar tupi em tempo recorde: cerca de três meses.

O desafio foi dado a Hélder Perri, aluno de Eduardo Navarro na Universidade de São Paulo que agora dá aulas do idioma.
É claro que os atores não chegaram a aprender tupi, esclarece Hélder. Eles apenas aprenderam o necessário para interpretar seus papéis. Para isso, o professor traduziu as falas dos personagens, mandou uma fita para que os atores pudessem assimilar a sonoridade da língua e, durante as gravações, ficava no set, uma aldeia tupinambá montada na cidade de Ubatuba, corrigindo a pronúncia. “O professor foi muito objetivo, o que acelerou nosso trabalho”, elogia o ator Sérgio Mamberti, a quem a façanha de falar um tupi com sotaque afrancesado, no papel de um mercador francês. Ele diz que ficou empolgado com a experiência: “O tupi tem um r gutural e um ritmo de língua oriental intercalada por palavras que para nós, brasileiros, são bastante comuns, como mirim, guaçu, ou mingau. Assim, ao falar tupi, eu me sentia às vezes como um japonês que, no meio de seu discurso, falasse algumas palavras em português”.

 

O tupi que o Brasil fala hoje

Assim como o latim e o grego, o tupi antigo participou decisivamente do português que é falado no Brasil. Assim, mesmo sem saber, não existe brasileiro que não conheça alguma palavra desse idioma. Que não saboreie abacaxi, pitanga, caju, jaboticaba, sapoti, gravatá ou pequi, frutas que conservaram seus nomes nativos. Ou que jamais tenha ouvido cantigas folclóricas como “Eu fui no itororó beber água e não achei. Achei bela morena, que no itororó deixei” —, mesmo desconhecendo que itororó é uma palavra indígena que significa bica d’água. Leia a seguir mais alguns exemplos, extraídos do Método Moderno de Tupi Antigo, livro do professor Eduardo Navarro:

“Reparando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem”, diz uma música de Chico Buarque de Holanda. Pereba, do tupi, significa ferida.

·                  Pare com este nhen-nhen-nhen. A expressão vem do verbo nhe’eng (falar, piar) e significa pare de ficar falando, de falar sem parar.

·                  O velho jogo de peteca, que é um pequeno saco cheio de areia ou serragem sobre o qual se prendem penas de aves, tem este nome devido ao verbo petek — golpear ou bater com a mão espalmada. É com a palma da mão que se joga o brinquedo.

·                  Velha coroca é uma velha resmungona. O termo nasceu do verbo kuruk, que significa resmungar.

·                  O verbo cutucar, em português, origina-se do tupi kutuk, cujo significado original — furar, espetar — modificou-se ligeiramente. Em português, cutucar é tocar com a mão ou com o pé.

·                  Estar jururu é estar melancólico, tristonho, cabisbaixo. O termo indígena aruru, de onde surgiu a palavra, tem o mesmo sentido.

·                  Várias palavras mantiveram pronúncia e significado praticamente originais: mingau (papa preparada geralmente com farinha de mandioca), capim, mirim (que significa pequeno) e socar (do verbo sok, com o mesmo significado).

·                  A expressão estar na pindaíba muito brasileiro conhece: significa estar em graves dificuldades financeiras.É uma expressão que vem das palavras pinda’yba — vara de pescar (pindá, isoladamente, significa anzol). Antigamente, quando a pobreza abatia as populações ribeirinhas, era comum se tentar tirar a subsistência do rio, pescando para comer ou para vender o pescado. Segundo os pesquisadores, a expressão nasceu no período colonial brasileiro, em que o tupi em sua forma evoluída conhecida como “língua geral” era falado pela maioria dos brasileiros.

·                  A perereca recebe esse nome simplesmente porque ela pula. Vem do verbo pererek, pular, que é também a origem do Saci-Pererê que, por não ter uma perna, anda aos pulos.                            10.350 z.