Pedro, Inês e a sobrevivência do amor         23 de Março de 2003                              8640 z.

No tempo do célebre casal, comia-se boi, cavalo e peixes e a doçaria abusava dos ovos

Uma das provas de que o amor é imortal, como feitiço do espírito e alimento da vida, é o permanente interesse da humanidade pelas grandes tragédias românticas. Histórias de casais apaixonados, cujos corações desafiaram adversidades, como Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, atravessam incólumes as gerações. O mais impressionante desses relatos envolve um casal medieval - Pedro e Inês - que viveu em Portugal no século 14. Há duas razões para fascinarem tanto. Em primeiro lugar, ambos não são figuras imaginárias, realmente existiram. Depois, protagonizaram um relacionamento rumoroso, que terminou em desgraça fartamente documentada. Luís Vaz de Camões, em Os Lusíadas, referiu-se ao romance. Outros mestres da literatura universal falaram dele, entre os quais Victor Hugo e Ezra Pound.

Pedro foi o oitavo rei de Portugal. Reinou por dez anos, ou seja, de 1357 a 1367. Passou à História como administrador competente. Empreendeu obras e organizou as finanças. O povo lamentou sua morte. "Dez anos assim nunca houve em Portugal", falava-se no país. Chamavam-no "o Justiceiro". Açoitava com as próprias mãos os criminosos, sobretudo os ladrões e assassinos, fossem plebeus ou nobres. Por outro lado, ajudava os desvalidos. Promovia bodos - banquetes nos adros, alpendres e interior das igrejas, para distribuir alimentos e dinheiro aos pobres. Gostava de sair à rua para dançar com o povo. Adorava comer bem e tomar o vinho feito pelos cistercienses do mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, 110 quilômetros ao norte de Lisboa.

Subiu ao trono com o nome de Pedro I (não confundir com o primeiro imperador do Brasil). Era filho de d. Afonso IV, outro rei famoso, que em 1340 ajudou d. Afonso XI, de Castela, a desbaratar o exército formidável de Abul-Hassan, emir do Marrocos, na Batalha de Salado, travada na Andaluzia. Foi um embate terrível para o inimigo. Os mouros perderam soldados e riquezas. A Crônica do Rei Afonso XI afirma que o enorme volume prata e ouro tomado dos inimigos fez despencar o preço desses metais preciosos. Em 1340, o então príncipe d.

Pedro casou com d. Constança, infanta de Castela, em núpcias arranjadas pela família de ambos. No dia do casamento, porém, o coração do futuro rei de Portugal começou a bater por outra mulher. Apaixonou-se pela bela galega d. Inês de Castro, dama de companhia de d. Constança. Os dois se tornaram amantes e tiveram quatro filhos. Após a morte de d. Constança, ocorrida em 1345 ou 1349, a ligação entre eles se estreitou.

As cortes fechavam os olhos para os casos de adultério masculino, interpretados como incontroláveis manifestações da virilidade. Mas o romance entre Pedro e Inês nunca foi tranqüilo. O pai do príncipe, d. Afonso IV, a nobreza e o clero, opuseram-se desde o início ao relacionamento. Temiam que um dos filhos de Pedro com Inês, na época chamados de bastardos, pudesse reivindicar o trono, em lugar da linhagem julgada legítima. Criticavam a influência dos três irmãos da dama galega, estrangeiros como ela, nas ações do príncipe, julgando-a prejudicial aos interesses do país. O trio efetivamente procurou convencer d. Pedro a tomar para si o trono de Castela.

A expedição conquistadora foi suspensa na última hora, sob pressão de d. Afonso IV. A nobreza e o clero invejavam a receptividade concedida pelo herdeiro do trono português a outros fidalgos castelhanos. A saída encontrada pelos opositores do relacionamento foi o assassinato de d. Inês.

O crime aconteceu em 1355. Reza a lenda que, ao saber da sentença de morte, d. Inês procurou d. Afonso IV e se jogou aos pés do soberano, implorando misericórdia em nome dos filhos, seus netos. O rei teria se sensibilizado e concedido o favor. Mas, pressionado pelos conselheiros, mudou de idéia e abandonou d. Inês aos punhais dos assassinos, os fidalgos Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco. A bárbara execução aconteceu na Quinta das Lágrimas, onde o casal de amantes se encontrava habitualmente. O local ainda existe e abriga um hotel de charme, filiado à cadeia Relais & Châteaux.

Apesar de o prédio ter sido erguido posteriormente, sua atmosfera nos transporta ao tempo dos amantes. Os administradores oferecem aos hóspedes todas comodidades modernas, apartamentos confortáveis e comida de primeira, sob a batuta de José Lourenço, um dos melhores chefs de Portugal. Mas, por outro lado, procuram manter o romantismo do passado. Nos dez hectares de terra ocupados pelo Hotel Quinta das Lágrimas existe uma fonte histórica.

Casais apaixonados a visitam sem parar. Ao ser degolada pelos punhais de Coelho, Gonçalves e Pacheco, d. Inês teria colorido as pedras da fonte com seu sangue. Até hoje são avermelhadas, embora se saiba que o fenômeno ocorre em virtude de um mineral presente na composição da rocha.

Os assassinos se aproveitaram da ausência do príncipe. D. Pedro havia saído para uma caçada. Naquele tempo, era empreitada capaz de durar semanas ou meses. Quando recebeu a notícia, o futuro rei quase enlouqueceu. Pegou em armas contra o pai e avançou em direção da cidade do Porto. Mas a mãe, d. Beatriz, e o bispo de Braga, seu amigo, convenceram-no a desistir da vingança. Guardando a dor no peito, o príncipe teria exclamado: "Inês é morta", cunhando a expressão resignada ainda utilizada para designar uma situação irremediável, completamente sem volta. D. Afonso IV conseguiu que o filho também não perseguisse os assassinos da amada. No fundo, porém, sabia que não o convencera. Tanto que, em 1357, ao cair no leito de morte, aconselhou Coelho, Gonçalves e Pacheco a cruzarem a fronteira e se exilarem em Castela.

No mesmo ano o príncipe subiu ao trono, com o nome de d. Pedro I. Sua primeira iniciativa: combinar com o rei de Castela a troca de refugiados.

Entregou três fidalgos estrangeiros, exilados em Portugal, e recebeu Coelho e Gonçalves. Pacheco escapou a tempo para Aragão e dali para a França, onde passou a levar uma vida sem sossego, atormentado pelo fantasma de d. Inês e o medo dos justiceiros do soberano português. D. Pedro I assistiu à longa tortura de ambos, sem arredar pé. Permanecia no recinto inclusive durante as refeições, comendo carne mal passada e bebendo vinho tinto. Coelho, líder do grupo, teve o coração arrancado pelo peito; o de Gonçalves saiu pelas costas.

Segunda providência do rei: mandou exumar a ossada de d. Inês e a coroou rainha de Portugal. A cerimônia foi patética. Colocados numa liteira de luxo, os restos da amada de d. Pedro I seguiram em procissão, do Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, onde se encontravam sepultados, até Alcobaça, quilômetros adiante. No trajeto, a nobreza e o clero que se opuseram ao romance tiveram que reverenciá-los. Na coroação, ordenou que os presentes ajoelhassem diante do cadáver e beijassem os ossos da mão. Conta a voz do povo que muitos saíram dali e passaram dias enxaguando a boca. Suspeitava-se que os cadáveres transmitissem a peste.

O rei afirmou na ocasião que havia casado secretamente com a amada, um ano antes da morte dela. Mas os historiadores não estão certos disso. Pedro e Inês eram primos e, para o casamento ser realizado, necessitavam de aquiescência eclesiástica, o que nunca aconteceu. Na mesma época, mandou esculpir dois túmulos, belos exemplos da arte tumular medieval portuguesa.

No de d. Inês, os baixos-relevos representam cenas da vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. A tampa exibe uma escultura na qual a favorita do rei é retratada com a coroa de rainha. As esculturas do túmulo de d. Pedro I reproduzem cenas da vida do casal, desde a chegada de d. Inês a Portugal. Os túmulos se encontram um diante do outro, no Mosteiro de Alcobaça. A tradição informa que o rei pediu para ser sepultado numa posição que lhe permitisse, no Juízo Final, quando acontecesse a ressurreição dos mortos, ter como primeira visão a figura da amada.

Aparentemente, d. Pedro I apagava a obsessão justiceira quando dançava com o povo, nas ruas e vielas, arraiais e bailaricos, ou estimulava bodos. Eram ágapes que nasceram como exercício de confraternização entre pobres e ricos, inspirados no princípio da igualdade das criaturas proclamado pelos primeiros cristãos, e depois se realizavam por diferentes pretextos. Podiam consumir de sete a oito touros de uma sentada. No início do século 15, ocorriam bodos inclusive durante cerimônias fúnebres. Quando morria alguém, os parentes e amigos promoviam um banquete na igreja em homenagem ao falecido. Os exageros na comida e os excessos provocados pela bebida, levaram d. Manuel I - o rei que armou as caravelas descobridoras do caminho marítimo para as Índias e do Brasil - a proibir bodos de comer e beber, realizados em templos religiosos, exceto os dedicados ao Espírito Santo.

A mesa no tempo de Pedro e Inês era tipicamente medieval. Diferia pouco da apresentada em outros países europeus. Predominavam os grandes assados, em fogões dotados de espeto e grelha, com os animais feitos inteiros, abundantemente condimentados. Comia-se boi e cavalo, mas de modo restrito. Eram animais importantes para o trabalho na terra e a locomoção das pessoas.

Mostrava-se mais freqüente o consumo das carnes de carneiro, cabrito, porco, galinha e capões. O mesmo acontecia com a manteiga, o queijo e os ovos. Mas parte desses alimentos acabava nas provisões dos poderosos, sob a forma de imposto. As caças eram abundantes. Tinham pêlo ou pena e variados calibres.

Muitas carnes ainda iam ao forno ou à caçarola, onde cozinhavam em água ou fritavam em gordura animal; ou, então, serviam de base para revigorantes sopas.

Os peixes participavam igualmente do cardápio. Mas esbarravam com freqüência nas dificuldades de conservação. A salga constituía uma solução. Entre o inverno e a primavera se pescava o sável e a lampréia. A doçaria se implantava, com o uso e abuso de ovos. Na falta do açúcar, empregava-se o mel. O Hotel Quinta das Lágrimas mandou editar o caderno de cozinha do local. São receitas da época de Pedro e Inês e posteriores ao casal, inclusive do século passado. Foram colecionadas ao longo do tempo e não é possível identificar com precisão as que remontam ao tempo dos amantes. É uma pena. Pedro e Inês, segundo os cronistas, comeram e beberam juntos muitas vezes.  © 2003 O ESTADO DE S. PAULO