A Guerra de Canudos                                                       época especial 17.4.2000     4.370 z.  

No arraial de Antônio Conselheiro, em 1896, o Brasil atingiu finalmente a idade da razão
Ao contrário do que se imagina, o momento em que alguém se torna independente não ocorre necessariamente quando a criatura se desliga da custódia de seus pais ou tutores. Desprendido da tutela de pessoas maduras, o jovem pode comprometer a independência recém-adquirida submetendo-se a más influências, vícios deletérios ou ilusões quanto a suas reais posses, sua condição ou seus potenciais. Nesse sentido, a verdadeira autonomia só se consolida com a chegada da idade da razão, assinalada pelo autoconhecimento, pelo senso de responsabilidade e pela capacidade de projetar um futuro com clareza de espírito, fazendo justiça à própria história de vida. A independência é muito mais um fato interno que externo, uma conquista da mente mais que qualquer símbolo concreto, título, data ou distintivo.
Se percorrermos a História do Brasil em busca de um momento que indique o advento dessa idade da razão, paradoxalmente iremos encontrá-lo em meio a uma das mais dramáticas crises de insanidade que se abateu sobre este jovem país. A Guerra de Canudos envolveu num conflito bizarro personagens que se viam como completos estranhos, embora cada qual fosse parte da mesma nação. Foi como um inesperado acesso de esquizofrenia que expunha, fragmentados em diferentes identidades conflitantes, os vários elementos históricos que compõem o corpo da sociedade brasileira. Com a crise vieram o diagnóstico e a proposta de uma terapia para redimir os males que retardavam o amadurecimento do país, configurados no relato épico de Euclides da Cunha, Os Sertões.
As origens do conflito revelavam as dificuldades do Brasil, preso ao padrão de uma economia agrária de modelo colonial, em se adaptar às dinâmicas da modernização no contexto internacional. Em meados do século XIX grandes acontecimentos transformaram o mercado mundial. A industrialização deu seus passos decisivos, com o desenvolvimento de novas fontes energéticas, como a eletricidade e os derivados de petróleo. Esse salto tecnológico se desdobraria em inovações que revolucionaram as comunicações, os meios de transporte e as técnicas de produção. O jogo de pressões resultante da expansão das potências emergentes causou, numa seqüência única, a abolição da escravidão, o declínio do Império e a Proclamação da República no Brasil. Esse reajustamento à nova ordem internacional afetou também a estrutura agrária brasileira, provocando um intenso êxodo rural. Um dos efeitos da desestabilização foi o surpreendente surgimento de Canudos.
A partir dos restos de uma fazenda abandonada em pleno sertão baiano, Canudos brotou e cresceu tão rápido quanto um cogumelo depois da chuva. Gentes vinham de todos os quadrantes do interior nordestino, atraídas pela comunidade que prosperava sob as bênçãos de um líder inspirado. Em menos de uma década o povoado já havia se tornado a terceira maior cidade da Bahia. Alarmados, fazendeiros e autoridades se viam na iminência de perder sua mão-de-obra devido ao êxodo em massa para o novo arraial. Um relatório da polícia alertou o governo federal de que "um indivíduo pregando doutrinas subversivas fazia grande mal ao Estado, distraindo o povo e arrastando-o após si, procurando convencer de que era o Espírito Santo".
Foi destacada uma força policial para suprimir os rebeldes, destroçada antes de chegar. Isso provocou o envio de dois destacamentos do Exército, os quais também foram desbaratados. Decidiu-se então mandar uma expedição militar completa, com artilharia e armamento moderno, que foi uma vez mais debelada. Pânico total! Organizou-se assim uma quarta expedição, composta de duas divisões do Exército e da maior concentração de armas já vista no país. Só desse modo e com imensas perdas a cidade rebelde foi vencida, quando se decidiu verter barris de querosene sobre as casas de taipa, queimando vivos os insurrectos. Os homens presos eram degolados ou estripados à faca, as mulheres e as crianças vendidas pelas tropas. Da cidade pujante e livre restaram só cinzas e fumaça.
Euclides não teve dificuldade em explicar as razões da força dos rebeldes. Ela era toda baseada na completa ignorância das elites a respeito do povo e do território. O Exército brasileiro era treinado por oficiais belgas, com manuais franceses, sobre táticas adequadas para combater nos Países Baixos. Não se tinha sequer um mapa do interior do país. Não se sabia nada sobre a ecologia das caatingas. Os uniformes vermelhos dos oficiais eram alvo fácil para os sertanejos. Os canhões afundavam no solo arenoso. As roupas de lã desidratavam as tropas. Um festival macabro de ignorância.
Canudos se defendeu com as armas que havia tomado às próprias tropas em fuga. A convicção férrea que animava seus combatentes provinha das raízes místicas profundas do catolicismo popular brasileiro. O alerta de Euclides era para que as elites desviassem o foco de seu interesse da Europa, voltando-se para reencontrar seu próprio povo e sua terra. Podemos repetir os erros, mas a lição está aí. O momento de o Brasil se encontrar consigo mesmo havia chegado.
Por Nicolau Sevcenko