Requalificação do Rossio  'Boletim Lisboa Urbanismo'

A Baixa Pombalina constitui o núcleo histórico do Ilusionismo e da Modernidade de Lisboa pós-terramoto e o Rossio um dos polos geradores dessa intervenção arquitectónica-urbanística, não só como elemento urbano fundamental (espaço/praça rectangular, cujos edifícios alinhados se destacam da linguagem pombalina da baixa – algo austera e monótona – pela forma elegante dos seus telhados de águas sobrepostos), mas também como centro histórico de caracter popular, cabendo-lhe as manifestações mais vernáculas, como contraponto à Praça do Comércio reservada para eventos ligados, ao poder político.

Na sequência da filosofia da revitalização da Baixa e dada a circunstância de estarem em curso as obras do metropolitano, a CML desencadeou uma operação de requalificação da Praça D. Pedro V – Rossio, Praças e Largos envolventes, tendo em vista os seguintes objectivos:

Com este projecto pretende-se qualificar o espaço do peão (circulação e estada), apesar dos condicionalismo impostos pela circulação viária. A requalificação da praça (aumentando a largura dos passeios e retomando a placa central), acompanhada por um reordenamento espacial rigoroso no que se refere à selecção e colocação de pavimentos, mobiliário urbano, caixas técnicas, iluminação e, inclusive na recolha criteriosa das espécies arbóreas a plantar. Esta reorganização geral, além de consentânea com a envolvente, no respeito pela austeridade da malha urbana traçada pelo plano de Eugénio dos Santos e do desenho das fachadas de Carlos Mardel, procurou a simetria geral da praça como elemento fundamental.

Descrição do projecto

Passeio Central

Procurou-se recuperar tanto quanto possível a imagem tradicional do passeio central (placa central), ou seja, a sua memória, com o seu característico pavimento em calçada de mosaico de vidraço preto e branco com o tema "mar largo", a sua iluminação romântica, as suas fontes, mas sem os cantoneiros que as enformam.

Propõe-se ainda, dois novos alinhamentos de árvores colocados longitudinalmente em cada lado da praça que, com os alinhamentos laterais nos passeios, recriam o efeito de alameda. A espécie seleccionada foi o jacarandá (jacarandá ovalifólia).

Esta opção teve sobretudo em atenção que, as espécies mais indicadas seriam as que apresentassem, quando adultas, uma copa aberta e pouco densa, permitindo o máximo de transparência relativamente às vista de e sobre as colinas envolventes.

Aliás, é ainda de referir como critério justificativo da arborização que, contrariamente à Praça do Comércio cuja dimensão, monumentalidade arquitectónica e riqueza do seu conjunto desaconselham a plantação de árvores, no Rossio a modéstia e a uniformidade urbanística (com edifícios de arquitectura deputada), bem como as actuais características vivências, determinam a plantação de árvores, surgindo estas como elementos valorizadores da arquitectura, favorecendo o enquadramento de todo o conjunto urbano (relação espaço público/edifícios).

Passeio Laterais

Nos passeios situa-se porventura a vertente mais contemporânea e inovadora da intervenção. Propõe-se o seu alargamento em todo o perímetro da Praça, ainda que variável, consoante as situações.

As alterações mais notórias irão ocorrer nos passeios longitudinais onde o perfil transversal passa dos actuais 8m para 14metros. As actuais árvores lodãos (celtis australis) situam-se sensivelmente a meio do passeio, constituindo esta uma zona preferencial para a implantação de alguns bancos onde o transeunte poderá repousar.

A circulação pedonal far-se-à preferencialmente de um lado destas árvores e separada da via por um novo alinhamento de árvores (jacarandá ovalifólia), cujo compasso de plantação corresponde o dobro do das primeiras. Neste alinhamento serão implantadas e devidamente ordenados diversos elementos (paragens de autocarro, quiosques, papeleiras, caixas técnicas, postes de iluminação, ...) que, de outro modo, constituem autênticos obstáculos/barreiras arquitectónicas à acessibilidade e circulação pedonal.

Nos pavimentos propõe-se a utilização de dois tipos de pedra: junto às fachadas e até à caleira/grelha de drenagem, lajetas de lioz, a restante área será em calçadinha de vidraço (branco/preto) rematada generosamente com lancis de meio metro de cantaria.Os passeios a Sul e a Norte também beneficiam de alargamentos.

Enquanto a Sul apenas se alarga o passeio, Norte apresenta-se uma estereotomia de pavimento envolvendo o Teatro Nacional D. Maria II.

Um outro a realçar é o dos atravessamento e a opção de os fazer, ou não, de nível.Afigura-se necessário encontrar soluções para melhorar os atravessamentos à superfície, deixando como último recurso qualquer solução enterrada que implique, futuramente, investimentos elevados e que constituem obstáculos à circulação nos passeios. Por último, convém ainda referir que a ligação Rua Augusta/Rua das Portas de Santo Antão é substancialmente melhorada com o alargamento dos passeios.

As praça, largos e ruas abrangidas pela área de intervenção, serão, tal como já foi referido, tratados em consonância com estes mesmos princípios, por forma a conjugar as soluções parcelares num espírito de intervenção global: Praça João da Câmara, Largo Duque de Cadaval, Largo do Regedor, Largo de S. Domingos, Rua Barros Queiróz e, em fase posterior, Praça da Figueira e Rua João das Regras.

O projecto não pretende ser excessivo nos estímulos e objectivos, nem tão pouco Ter a preocupação de ser um produto totalmente acabado, isto é, não deve ser um projecto fechado. Deve sim permitir a acção do tempo da cidade e do tempo de apropriação por parte das pessoas que o vão usar.

Não deve isolar-se da envolvente, nem aspirar a substituir a complexidade que só a cidade pode oferecer.Reconhecer e adoptar o equilíbrio evitando a sobrecarga de elementos permitirá certamente o protagonismo do espaço, aligeirando-o de excessos, dotando-o do correcto doseamento de estímulos sem ser agressivo.