Pergaminho de D. Dinis estragado no restauro...

Ficou ilegível o único documento conhecido com músicas de «cantigas d'amor»  J. VIEIRA

HARVEY Sharrer, professor e investigador da Universida­de da Califórnia em Santa Bárbara, chorou ao perceber o conteúdo do pergaminho que tinha pela frente. Foi há cinco anos, na Torre do Tom­bo. Especialista em textos antigos portugueses, Sharrer investigava os pergaminhos medievais que, julgados inú­teis, há muito encapavam li­vros mais modernos.

O manuscrito que reteve a atenção do historiador ameri­cano servia de cobertura a uma série de documentos do Car­tório Notarial de Lisboa do século XVI. O estilo da escri­ta gótica permitiu ao profes­sor situar o pergaminho em cerca de 1300 (mais década, menos década), no reinado de D. Dinis.

A letra acompanhava uma notação musical coeva: tratava-se portanto de canções da época do rei-lavrador. Sharrer consultou a seguir as poesias dos cancioneiros galaico-portugueses e só então chegou à conclusão que o emocio­nou. Ele próprio descreveu mais tarde esse momento, num texto de apresentação da sua descoberta: «O pergami­nho, apesar do seu mau es­tado de conservação, seria a mais antiga versão manus­crita conhecida de poesia de D. Dinis e o único exemplo conhecido de música de 'cantigas d'amor'. Além dis­so, seria a primeirama: infestação documentada de música profana portu­guesa. Comovido pela im­portância da descoberta, não podia conter as lágri­mas.»

Impressionados pela pre­ciosidade, os responsáveis da Torre do Tombo logo passa­ram a tratar aquele pedaço de pele de carneiro, escrito em ambos os lados, com uma di­mensão próxima do formato A3, mas rasgado, coçado e carcomido pelo tempo e pelo uso, como um dos mais sagra­dos tesouros do Arquivo Nacional. E foi aqui que surgi­ram os problemas.

O pergaminho foi alienado da sua função de mortalha notarial e colocado em res­tauro nas próprias oficinas da Torre do Tombo. Porém, com tanto ou tão pouco zelo, que terá acabado ainda mais mu­tilado do que antes — e de forma irreversível.

 

«Incompetência e impunidade»

Essa é pelo menos a de­núncia agora feita pelo musicólogo Manuel Pedro Fer­reira, um especialista do perí­odo medieval lusitano que Sharrer convidou como co-autor da edição crítica deste fragmento, onde foi possível, pela primeira vez, decifrar a música de sete das centenas de «cantigas d'amor» dinisianas. Ferreira decidiu avançar com a revelação na véspera da primeira apresentação moderna das sete canções, que terá lugar no Festival de Música de Leiria, hoje, amanhã e segunda-feira.

O historiador e o musicólogo começaram por estudar o documento antes do restau­ro e voltaram a consultá-lo dois anos mais tarde, já após a operação efectuada pelos con­servadores da Torre do Tom­bo. «Tivemos um choque», escreve Ferreira na edição crítica (ainda não publicada). «Um grande número de no­tas, hastes, guiões e claves musicais tinham sido ocul­tados, prejudicados ou apa­gados de vez pelos técnicos. A irresponsabilidade da Torre do Tombo viu-se con­firmada logo que pudemos confrontar os nossos apon­tamentos com ampliações das fotografias do pergami­nho anteriores à operação. (...) No total, 19 por cento do precioso conteúdo musical do fragmento foi negativa­mente afectado pela incom­petência e impunidade das decisões tomadas na Torre do Tombo.»

No essencial, o restauro consistiu no apagamento da sujidade através de uma bor­racha electrónica, de um ba­nho em conservante e de uma prensagem. Os técnicos inse­riram o fragmento num suce­dâneo da pele de carneiro, destinado a substituir as áreas desaparecidas, mas nem se­quer respeitaram a dimensão original do pergaminho. A li­gação entre o documento ori­ginal e a «moldura» fez desa­parecer algumas das notações musicais.

«O que me indigna é a total falta de respeito pela minha profissão», exclama Pedro Ferreira. «Aqueles fun­cionários tomam decisões totalmente irresponsáveis e ficam impunes. Não há nin­guém nos arquivos que sai­ba de paleografia musical. A mim, que sou reconheci­do como especialista da ma­téria, ninguém pergunta nada. Estive três anos a pre­parar a edição crítica e a recompensa que tenho é ver o património estragado por quem é pago para o conser­var.» O EXPRESSO tentou, em vão, obter um comentário dos responsáveis da Torre do Tombo.                                                                                  3.550 z.