As mansões do café                                                                                           expresso 1/12/00    

No Brasil, só os amigos dos novos proprietários conheciam os palacetes dos barões do café, que começam agora a ser abertos ao público. Reconstruídos ou restaurados, contam a história dos fazendeiros-aristocratas do século passado, cujo reinado durou cem anos e terminou de repente, quando a abolição da escravatura pôs termo a um ciclo e precipitou o fim do Império e o advento da República

No mar de morros que surpreende quem deixa o litoral do Rio de Janeiro para o interior, em direcção ao vale do rio Paraíba, esconde-se um tesouro que até há pouco tempo só alguns tinham a possibilidade de contemplar. São as casas de fazenda construídas pelos ricos produtores de café no primeiro século em que a bebida se tornou a marca do Brasil.

Ninguém sabe exactamente quantas são. Cerca de 300 no estado do Rio de Janeiro, dizem alguns estudiosos. Podem chegar a 600 se incluídas as de São Paulo e Minas Gerais, afirmam outros. As casas espalham-se, nos três estados, por uma superfície maior que todo o Alentejo. Contam a história dos homens que sustentaram o único império das Américas, o brasileiro, e foram a única aristocracia do continente.

Até recentemente, eram conhecidas apenas pelos amigos dos novos proprietários. Agora, cerca de 30 podem ser visitadas. Uma dezena de autocarros sobe a serra todas as semanas, com turistas brasileiros e estrangeiros ansiosos por conhecer as casas de barões, viscondes, marqueses, que viveram o seu período áureo no século XIX, até ao fim da escravatura, em 1888, quando mergulharam numa súbita, sofrida e longa decadência.

Alguns historiadores só encontram paralelo neste destino com o dos plantadores de algodão da Geórgia, que, na mesma época, também viviam do trabalho escravo nos Estados Unidos. Mas Tasso Fragoso Pires, estudioso deste período, lembra que, se a história americana foi reconstituída no filme «E Tudo o Vento Levou» com mansões de cartolina, as brasileiras ainda hoje são de tijolo, pedra, cantaria. Como se encontram em terras banhadas pelo rio Paraíba, a imprensa já as apresenta como o vale de La Loire brasileiro.

Não foi fácil para as agências de turismo da região convencer os proprietários a abrir as suas fazendas. A maioria está na posse de famílias abastadas, que preferem a privacidade e temem sequestros. Outras encontram-se em estado precário. Nos velhos tempos estavam abertas até a visitantes desconhecidos, de passagem pela região, que dormiam em alcovas sem janelas, fechadas por fora, por segurança.

A Fazenda Secretário abriu recentemente as suas portas. É um palácio construído em 1830, no estilo neo-clássico trazido pela missão francesa que chegou ao Brasil em 1816, a convite do Príncipe D. João. A nova proprietária, Martha Britto, recebe os visitantes junto à porta de madeira maciça, com quatro metros de altura, depois de uma pequena escada de mármore ladeada por duas estátuas de negros em tamanho natural, fundidas por Barbezat &Co, no Val D'Osne, França. Há poucos meses, a herdeira da fundição francesa, que fechou em 1986, emocionou-se ao vê-las.

Diante da mesma porta, há 150 anos, o barão de Campo Belo, Laureano Correa e Castro, cavaleiro da Ordem de Cristo, comendador da Ordem da Rosa, recebia o revolucionário Charles Ribeyrolles, exilado no Brasil, que ali chegou em lombo de burro para conhecer as intrincadas relações senhor-escravo que atiçavam a sua curiosidade de defensor dos direitos do homem. A fazenda tinha 365 escravos, que cuidavam de 500 mil pés de café, e produzia, segundo o francês, mais riqueza que um reino alemão.

Dali saiu Ribeyrolles surpreso com a bela hospitalidade do barão. Bem melhor, diz ele, que a recebida por Chateaubriand, que passou fome entre os ingleses. «Onde estão os verdadeiros civilizados?», pergunta, a propósito, o revolucionário no seu livro «O Brasil Pitoresco», onde regista a surpreendente descoberta de que alguns senhores trabalhavam tanto quanto os seus escravos: «Trabalhador infatigável, mourejando desde o romper da alvorada há 40 anos, o barão está, como os seus negros, jungido ao cativeiro.»

Quando Martha aqui chegou, em 1986, só havia o grande lustre da entrada, junto à bela escada inglesa. Pela estrada, levados pelos descendentes e proprietários que vieram depois deles, desapareceram todos os preciosos objectos que o barão de Campo Belo acumulara em vida e que constam do seu inventário: só em prata de lei, abundante em todas as mansões, ele deixou seis serviços de talheres, 56 pratos lavrados, 15 travessas grandes, dezenas de saladeiras, fruteiras, jarras, candelabros e centenas de pequenos objectos.

Martha, herdeira de um criador de gado da Baía, teve de mobilar tudo de novo. Seguiu o mesmo caminho de todos os novos proprietários - leilões e antiquários brasileiros e europeus. Com o cuidado de só adquirir peças do tempo do barão. Hesitou em abrir a sua casa até entrar para um organismo criado em 1996 por alguns proprietários - o Instituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraíba (Preservale). Apaixonada pelo seu imenso palácio, onde vive sozinha, sem medo dos fantasmas que dizem povoar todas estas casas, sente prazer em mostrar ao visitante cada pormenor da sua recuperação.

O deputado social-democrata Ronaldo César Coelho, que fez fortuna muito jovem no mercado financeiro, é um dos animadores do Preservale. Na sala de almoço junto à bela cozinha da Fazenda São Fernando, confessa que comprou a propriedade porque era moda, nos anos 80. Eram troféus das riquezas emergentes. Foi em contacto com a equipa de arquitectos, restauradores e arqueólogos que contratou para o seu restauro que tomou consciência da importância da casa.