Um alemão apaixonado pela flora brasileira

Após expedição ao Brasil, o botânico Karl von Martius se dedicou à pesquisa da flora e da cultura nacionais

Em 1817, chegava ao Brasil uma missão austríaca que trazia a arquiduquesa Leopoldina para se casar com D. Pedro I. Nessa expedição, vieram também diversos cientistas e artistas europeus, entre eles o jovem botânico alemão de 23 anos Karl Friedrich Philipp von Martius. Seu trabalho durante a viagem renderia a obra Flora brasiliensis , que levou 66 anos para ser concluída e é ainda hoje o mais completo e abrangente levantamento da flora nacional, com 22.767 espécies catalogadas. Durante cerca de três anos, von Martius percorreu, ao lado do zoólogo alemão Johann Baptiste von Spix (1781-1826), aproximadamente dez mil quilômetros pelo interior do Brasil, recolhendo informações sobre a flora e a sociedade brasileiras. Em 1820, voltaram à Alemanha, onde começaram um esforço de catalogação e publicação do material aqui recolhido. Esse trabalho resultou na obra Reise in Brasilien ( Viagem pelo Brasil ), concluída pelos cientistas em 1831, além da Flora Brasiliensis , conduzida por von Martius até sua morte, em 1868, e continuada por outros 65 cientistas até a publicação, em 1906. “A Flora Brasiliensis ainda é a maior obra de flora já feita no mundo, com o maior número de espécies e gêneros descritos”, afirma Rafaela Forzza, pesquisadora e curadora do Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “Até hoje nenhum botânico brasileiro trabalha sem ela.” Até o início de 2006, as consultas à Flora Brasiliensis se restringiam a especialistas, pois os poucos exemplares existentes estão protegidos em salas de obras raras de bibliotecas. No entanto, em março, foi inaugurada a exposição Flora Brasiliensis On-line , uma adaptação do original em papel para um portal na internet, que permite a qualquer pessoa consultar o conteúdo e as ilustrações da obra, sem perda de definição das imagens. O projeto, desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas e pelo Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria), associação civil sem fins lucrativos, vem recebendo, desde o lançamento, cerca de dez mil visitantes por mês. A digitalização das imagens está sob a responsabilidade do Jardim Botânico de Missouri, nos Estados Unidos.

Von Martius, um cientista completo

As pesquisas de von Martius ganharam tamanho prestígio que, após sua volta para a Alemanha, ele foi nomeado professor da Universidade de Munique (em 1826) e diretor do Jardim Botânico da cidade (em 1832). Mas o pesquisador não restringiu seus estudos à botânica. No século 19, era comum que cientistas se dedicassem tanto às ciências naturais quanto às sociais. Com von Martius não foi diferente – ele também foi um apaixonado por antropologia, lingüística e música. Tanto que em sua viagem pelo Brasil realizou estudos etnográficos e coletou melodias indígenas e modinhas por meio de seu inseparável violino. Como resultado dessas pesquisas, von Martius publicou obras sobre a etnografia e a lingüística brasileiras que foram extremamente importantes para a formação de uma identidade nacional no momento pós-independência. Entre as obras do cientista na área das ciências sociais, encontra-se o texto Como se deve escrever a história do Brasil , no qual ele propunha que o relato da história brasileira desse valor à contribuição das três raças para a formação do país, à língua e aos costumes indígenas, à atuação dos jesuítas e ao modo de vida colonial, entre outros aspectos. A obra mostra a preocupação com uma história que levasse em conta o passado nacional, comum a todos os brasileiros. Com esse texto, von Martius venceu um concurso promovido em 1840 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. “O concurso em si já era parte do esforço da elite do novo país, apoiada pelo jovem Imperador, para conhecer o Brasil e lhe dar uma cara”, explica o historiador e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Murilo de Carvalho. “O Brasil era o único país americano governado por uma monarquia, composto por diferentes culturas e que tentava organizar um governo nos moldes europeus. A necessidade de conhecer esse país e de construir sua historiografia era premente.” Outras obras de von Martius foram de extrema importância para os estudos etnográficos brasileiros. Entre elas estão Contribuição para a etnografia e lingüística da América, especialmente do Brasil (1867) e Glossário das línguas brasileiras (1863), onde o pesquisador reuniu os vocábulos indígenas colhidos junto com Johann von Spix entre 1817 e 1820. Carvalho destaca um aspecto interessante na obra de von Martius: “Ele valoriza os três principais grupos humanos que constituíam o país na época – o nativo, o europeu e o africano. A singularidade do Brasil estaria nessa combinação.”

Uma vida dedicada à ciência

Von Martius nasceu no dia 17 de abril de 1794, em Erlangen, na Baviera (Alemanha). Filho primogênito de um farmacêutico da corte e professor universitário, doutorou-se em medicina aos 20 anos pela Universidade Fredericus Alexander, em sua cidade natal. Aos 28 anos, em 1823, casou-se com Franziska von Stengel (1805-1881), com quem teve quatro filhas e um filho. O interesse de von Martius por botânica surgiu no fim da faculdade. Tanto que defendeu sua tese de doutorado nessa área e participou de um curso de aperfeiçoamento da Real Academia de Ciências de Munique, na Alemanha. Sua paixão por botânica também se revela na determinação de pesquisar a flora do Brasil em uma viagem recheada de dificuldades. As províncias de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Pará e Amazonas foram percorridas na maior parte do tempo em lombos de burros ou em canoas, com auxílio de tropeiros e guias nativos. O maior legado de von Martius para a ciência foi, sem dúvida, a Flora Brasiliensis . Em seus 15 volumes, subdivididos em 40 partes, estão catalogadas todas as espécies vegetais brasileiras conhecidas na época. “Nada substituiu a Flora Brasiliensis e eu creio que nada vai substituir”, afirma Rafaela Forzza. “Na verdade, para grandes grupos da nossa flora, só temos essa obra de referência até hoje.” Além disso, a Flora Brasiliensis foi a primeira obra a apresentar e descrever muitas espécies até então desconhecidas para o mundo. Von Martius se dedicou à ciência até sua morte, em 13 de dezembro de 1868, em Munique. Rafaela Forzza ressalta que o pesquisador foi, na verdade, um grande empreendedor, que deixou um enorme legado para a botânica brasileira. “Sem ele e a Flora Brasiliensis , certamente estaríamos hoje muito mais atrasados no conhecimento da flora brasileira.” Bárbara Skaba Especial para Ciência Hoje On-line  16/01/2007 5.700 z.