Rafael Cardoso: ENTRE as MULHERES  (Conceição, Saúde,72) Editora Record, 2007, p. 163 -176

 

A moça parou diante da fachada de pedra marrom. Vendo a fresta aberta da janela, não se furtou a espiar o interior da casa através das grades. Dentro, apenas móveis escuros e um silêncio sombrio, em franco contraste com o sol forte que acachapava a Rua do Jogo da Bola. Equilibrou a pasta preta sobre a soleira da porta e, remexendo na bolsa de lona da Cantão, retirou uma agenda espiralada, grande demais para ser prática. Encontrou a folha desejada e examinou-a, olhando em seguida para a fachada e depois para a agenda de novo. Sem emitir nenhum som, seus lábios formaram as sílabas "cento e quatro", confirmando o número da casa.

Ainda na dúvida, olhou para os lados. Não havia mais ninguém na rua no calor sufocante daquela tarde de janeiro, a não ser uma criança, logo adiante, na sombra parca do flamboaiã.

- Ei, menino, é nessa casa aqui que mora a dona Ceiça?

O garoto interrompeu sua brincadeira solitária para observar recém-chegada. Fixou sobre ela um olhar assustado de admiração, como se fosse aquela a primeira vez na vida que visse alguém de fora daquele lugar. Em seguida, meneou cabeça que sim, guardando silêncio. Como pode morar no Rio de Janeiro e ser tão xucro assim?, pensou a moça. Com essa idade, minha sobrinha já fala dois idiomas e leu O apanhador no campo de centeio no original. Tocou a campainha, mas não ouviu nenhum som. Carregou de novo no botão e esperou. Nada. Após mais alguns instantes, resolveu bater na porta. Usou o excesso de força condizente com sua pressa, provocando um estrondo súbito na pequena casa. Uma voz cansada e irritada respondeu de dentro:

- Já vai!

A dona da voz era uma senhora de seus setenta e poucos anos, morena clara, mais baixa do que alta, mais para gorda do que para magra. Abriu a porta com um ar severo, olhando de cima para baixo, embora não possuisse altura suficiente para tanto. Trajava com simplicidade elegante um vestido azul-marinho estampado de pequenas flores amarelas, sem gola nem mangas, de onde emergiam pesadas as dobras roliças de seus braços. Parecia de antigamente, pensou a moça. Vendo-a, esboçou um sorriso de dentes tão perfeitos que só podiam ser dentadura.

- Você deve ser a moça do cinema, não é mesmo?

- Sou sim, Ângela Simões disse-lhe, estendendo uma mão a distância.

- E a senhora é a dona Ceiça?

- E quem mais eu haveria de ser, minha filha? Vá entrando, por favor. Não repare na bagunça.

A moça aproveitou o convite para sair do sol. Dentro da casa, estava mais fresco alguns graus.

- A senhora me desculpe o atraso. E a primeira vez que venho no Morro da Conceição e errei o caminho.

- Mas eu não falei para você vir pela Sacadura Cabral e dobrar na Rua do Escorrega? Era só subir direto.

- Pois é, acabei me confundindo e vim pela Ladeira do João Homem! Como é íngreme aquela subida!

- E eu não sei, minha filha? Levei vinte e oito anos para perfazer esse mesmo caminho.

Ângela deixou passar o comentário enigmático, sem pedir explicação. Na verdade, quase nunca prestava atenção no que os outros diziam. Naquele momento, então, estava ocupada em observar os detalhes do cenário que adentrara, com seu olhar cinematográfico recém-adquirido. Ajustando os olhos à relativa escuridão, percorreu o ambiente em rápidos golpes de vista, passando em revista as cadeiras antigas de madeira escura, o guarda-roupa das Casas Bahia, o pequeno elefante com tromba erguida, posto orgulhosamente sobre o aparador ornado com motivos chineses, e o indefectível quadro da Santa Ceia, em colorida versão de tapeçaria.

Vislumbrou a borda de uma mesa de fórmica vermelha que despontava da porta da cozinha. Tudo lá era velho, porém impecavelmente limpo e bem-conservado, registrou numa anotação mental equivocada, mas que corroborava suas expectativas quase etnográficas.

- Você está toda suada, minha filha! Aceita alguma coisa para beber? Um refresco?

- Só um copo d'água, por favor. Não quero incomodar a senhora.

- Não é incômodo algum.

Dona Ceiça atravessou a pequena distância que separava a sala do corredor e desapareceu por detrás da primeira porta retornando em seguida com uma bandeja carregada de dois copos, uma jarra de refresco de caju e uma garrafa de água bojuda, com bico verde de plástico. Encontrou Ângela com um porta-retrato de metal entre as mãos, a examinar a foto em preto-e-branco de um homem fardado de seus quarenta anos. Reparou que a moça não se sentira constrangida ao ser pega fuxicando nas coisas da casa, e muito menos pedira licença para tanto. Resolveu ser magnânima. Hoje em dia, é normal as pessoas serem assim, sem educação, ponderou. Ainda mais essa gente da Zona Sul, que achava que podia tudo.

- É meu finado marido, o Antenor.

- Ele era militar?

- Primeiro-sargento da Marinha.

- E faz quanto tempo que ele faleceu?

- Em abril, vai fazer doze anos. Você tem certeza que não aceita um refresco de caju? Fiz agorinha mesmo.

- Já está adoçado? - franziu a testa.

- Está sim.

- Então só vou querer água. Não tomo açúcar.

- Nenhum? Nem no café? -arregalou o olho.

- Nem no café.

- Cruzes! De amarga, já basta a vida!

Que gente esquisita essa, concluiu dona Ceiça, vertendo o líquido amarelo em seu próprio copo. Mania dessa gente, adoçar tudo, refletiu Ângela, sorvendo com sofreguidão o copo de água ofertado. No instante de silêncio que se instaurou enquanto a dona da casa bebericava seu refresco, Ângela abriu a pasta preta e começou a retirar um grande número de papéis, lápis, caneta, formulários e até um gravador portátil. Ao se deparar com o aparelho, dona Ceiça reagiu assustada:

- Você vai gravar a nossa conversa?

- Se a senhora não quiser, não gravo.

- Não, não é isso. É que não tenho nada de tão importante assim para dizer. E, além do mais, detesto o som da minha voz gravada!

- Tudo que a senhora tiver a dizer é importante para nós. E na hora que a gente for filmar, vai gravar tudo. A senhora entende isso, não é?

- Está bem, minha filha, mas se eu falar alguma bobagem, vocês apagam, não é mesmo?

- Claro, dona Ceiça. A gente não vai colocar nada no filme que a senhora não autorize.

Por cima do copo suado, continuou a estudar os gestos da moça, que não se entendia com tanta parafernália. Ela escarafunchava a pasta com insistência, aparentemente à procura de algo importante que, no final das contas, desistiu de localizar. Terminada a busca, voltou-se para dona Ceiça com uma expressão calculada para inspirar confiança. Sorriu, olhando-a bem nos olhos, conforme aprendera na faculdade de Serviço Social.

- A senhora entende que esta é só uma entrevista preparatória, para ajudar o diretor quando ele vier filmar?

- O diretor é aquele moço simpático, que esteve aqui na semana passada?

- Isso, o Rogério.

- Seu Rogério, isto mesmo. E tinha um outro moço com ele, um rapaz bem bonito. Esqueci o nome dele...

Enquanto a velha buscava relembrar o nome, Ângela tentava organizar mentalmente a ordem em que faria as perguntas. Fora advertida que não havia uma sequência preestabelecida, mas não conseguia se desligar do velho hábito.

Os nove anos na Prefeitura haviam deixado suas seqüelas e, apesar de tanto tempo parada, deleitava-se secretamente em redescobrir as lições quase esquecidas de técnica de entrevista. O nervosismo atrapalhava. Precisava lançar mão de sua experiência passada ao retomar agora o trabalho. Pelo menos tinha uma chance de fazer algo, finalmente, depois de onze meses parada. Graças à Bel, sua irmã, que era amiga do Rogério. Caso contrário, continuaria desempregada, com toda certeza.

Olhou novamente para dona Ceiça e sorriu com a mesma franqueza simulada de antes. A velha devolveu-lhe o sorriso, com uma simulação bem mais profissional de amabilidade.

- Faz quanto tempo que a senhora mora aqui?

- No Morro, ou na Jogo da Bola?

- Nos dois.

- Aqui nesta casa, faz 22 anos que eu moro. Mas, no Morro, é muito mais. Cheguei ao Rio em 1954, no mês de setembro, e fui logo morar num quarto de pensão na João Homem. Deixe-me ver, estamos em 2005... há mais de cinqüenta anos que vivo por aqui!

- Cinqüenta anos. Nossa. A senhora veio de onde, originalmente?

- Campos.

Ângela fez uma anotação no pequeno bloco em suas mãos, menos para registrar os dados e mais para ganhar tempo antes de fazer a próxima pergunta.

- A senhora veio na cara e na coragem, ou conhecia alguém aqui?

- Minha irmã Aparecida já trabalhava na Praça Mauá.

Outra anotação, mais demorada. Dona Ceiça reparou que a moça mordia a língua no interior da boca enquanto escrevia. Era um hábito nervoso antigo. A mastigação lenta do músculo aprofundava-lhe a concentração. O que diabos faziam ela e a prima, duas moçoilas de Campos, em 1954, em plena Praça Mauá? Fugindo da conclusão óbvia, Ângela ainda se pôs a perguntar:

- Trabalhava em quê?

- Dona Ceiça pousou sobre ela um olhar comprido, um misto sereno de incredulidade e compadecimento. Sorriu com algo bem próximo da elegância fidalga e respondeu:

- Ela dançava em cabaré.

- E a senhora foi dançarina também?

- Eu não sabia dançar, à época, mas aprendi o que tinha que aprender.

Nova anotação no bloco, o que será que ela quer dizer com isto, titubeou, ainda rabiscando palavras para ganhar tempo. O que será que ela tanto escreve?, imaginou a entrevistada.  Afinal, não é tão complicado assim. Ângela chegou a considerar a opção da pergunta direta, sem rodeios, mas a velha poderia se ofender. Que situação complicada! Passou os olhos pelo roteiro que havia preparado, buscando uma saída. A palavra certa veio em seu auxílio.

- A senhora tem alguma fotografia daquela época?

- Fotografia? Tenho. Várias.

Dona Ceiça ergueu-se rápida da cadeira e desapareceu novamente no corredor escuro. O som de seus passos a se afastarem pelo chão de tábua corrida demarcava com precisão a distância percorrida, até sumirem no ranger longínquo de uma porta. Por alguns instantes (ela não saberia dizer quantos), Ângela permaneceu sozinha na sala a ouvir o tiquetaque metálico do relógio pontuando, ritmado, a profundidade do silêncio. Os segundos se desdobravam em minutos, e os minutos pareciam longos como horas. Era como se o tempo se dilatasse no interior sombrio da casa, protegido do sol e do apressadoritmo da cidade por grossas paredes de pedra. Os olhos de Ângela puseram-se a percorrer três velhas fotografias de crianças, à sua frente, do outro lado da sala, ampliadas e coladas sobre painéis de eucatex, e penduradas em escadinha abaixo de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. De lá, subiram as paredes por pequenas rachaduras até um ponto onde a tinta descascada emoldurava velhas manchas de água rentes ao teto. Nada mais perturbava a sobriedade lisa do pé-direito altíssimo, sob o qual o passado respirava folgado e forte. Ângela buscava situar sua própria presença agitada em meio à intensa calmaria que aos poucos a absorvia, quando os passos de dona Ceiça ressoaram novamente no corredor. A figura da velha senhora assomou à soleira da porta, abraçada a uma caixa de sapatos abarrotada de fotografias.

- Aqui estão.

Acomodadas novamente à mesa de jantar, dona Ceiça abriu a caixa e principiou a extrair as fotografias ali contidas. Conforme as retirava, examinava rapidamente seu teor e, de acordo com o juízo formado, empilhava-as em dois pequenos montes à sua direita. Ângela observava em silêncio, temerosa de atrapalhar o método oculto por trás do procedimento. Quando terminou de separar o primeiro bolo de fotos, transferiu uma das pilhas para a esquerda e começou a passá-las para Ângela, uma a uma.

- Quem são essas pessoas?

- Deixa eu colocar meus óculos.

Dona Ceiça examinou cuidadosamente a foto, reconhecendo nela o ambiente do Rio de Janeiro de sua juventude. Os sobrados e edifícios nem haviam mudado tanto. Os carros, sim, completamente. E as roupas também. Como as pessoas andavam bem-vestidas naqueles tempos! Mesmo na Praça Mauá, que era um lugar pobre, havia uma preocupação com a elegância.

- Quem?

- Aqui.

O dedo de Ângela apontou para um grupo de pessoas posando dentro de um bar vazio, entre mesas e cadeiras desocupadas. Havia uma dezena de homens vestidos de paletó branco, calças pretas e gravata-borboleta, um só de terno escuro e meia dúzia de garotas, visivelmente emperiquitadas. Dona Ceiça informou ser a velha boate Calèche, o primeiro local em que trabalhara ao cheçar ao Rio.

- A senhora está reconhecendo alguém?

- Ai, minha filha, faz tantos anos. Conhecia todo mundo aqui. Só não saberia dizer os nomes de todos. Esta lourinha daqui se chamava Dalza e a outra é a irmã dela, Deise, se não me engano. Esta aqui é a Aurora, uma baiana que dividiu quarto muito tempo comigo. E este senhor calvo, de terno, é o seu Netto, que era o gerente do lugar. Ele era um português terrivel, muito severo.

À medida que desfiava os nomes, o dedo enrugado ia pontuando rostos congelados em diversas atitudes e posturas - uns acanhados, outros alegres, outros presunçosos. Embora se dessem a ver momentaneamente na exposição forçada do retrato em grupo, as vidas por trás daquelas expressões permaneciam distantes, exiladas para sempre num passado perdido. Olhando a triste e raquítica figura da lourinha Dalza ganhar nome pelas palavras de dona Ceiça, Ângela teve a convicção, pela primeira vez na vida, de que as fotografias escondem mais do que revelam, de que roubam uma porção mínima do presente para entregá-la ao futuro como rastro e sombra. Não que ela fosse capaz de articular essa idéia com qualquer precisão. O pensamento sobreveio-lhe de forma confusa, como uma vaga sensação de mal-estar no fundo da barriga.

- E a senhora está aí no meio?

- Claro, sou esta daqui.

Pousou decidida o dedo torto sobre a figura baixinha de uma menina que se dissolvia na meia-luz do lado esquerdo da foto. Seus olhos estavam quase escondidos pela farta franja preta que invadia todo o lado direito do rosto, à la Veronica Lake. Não era bonita, mas era vivaz, com um jeito de corpo cuja sensualidade conseguia transparecer através da imagem estática e esmaecida. Ângela olhou admirada da foto para dona Ceiça e, dela, de volta para a foto.

- E a senhora?

- Sou eu mesma - pronunciou orgulhosa - ou, melhor, era. Hoje, sou apenas esse caco que você está vendo.

A história de dona Ceiça não era complicada, nem surpreendente. Chegou ao Rio aos 21 anos de idade. Tornou-se prostituta. Depois de topar muito com os obstáculos naturais à sua nova condição, aprendeu aos poucos a perfazer o caminho da menor resistência, serpeando entre valas e cristas como água ladeira abaixo numa rua de paralelepípedos. Viveu assim durante sete anos. Em 1961, conheceu um marinheiro chamado Antenor, quinze anos mais velho, que se apaixonou por ela. Tirou-a da vida difícil e alugou uma casa para eles do lado da pensão onde ela morava, no pé da Ladeira do João Homem. Acontece que Antenor era casado. Tinha uma mulher na Bahia, em ltabuna, onde vivia quando não estava embarcado. De três em três meses, aparecia no Rio de Janeiro. Geralmente, conseguia passar três dias, uma semana às vezes, mas sempre mandava dinheiro para o aluguel e as despesas.

Acostumou-se a viver assim. Depois de um ano, engravidou. Anunciou ao futuro papai que iria tirar a criança e virar prostituta de novo, a menos que ele viesse morar com ela. Não queria ser mãe sozinha. Antenor morria de ciúmes de sua pequena (era como a chamava) e dizia que faria qualquer coisa para evitar que ela voltasse ao antigo ganha-pão, mas confessou que não podia abandonar a esposa doente. Ela recuou do aborto e teve seu primeiro filho, Jacinto. Nada mudou; só a mesada aumentou um pouco. Um ano depois, engravidou de novo. Sem ameaças desta vez, teve as gêmeas, Lúcia e Francisca. Quando Jacinto completou quatro anos, a esposa de Antenor morreu. Ele conseguiu transferência para o Rio de Janeiro, e se mudaram para uma casa maior, mais para o alto da Ladeira, quase na Praça Major Valô. Passado um ano após a morte da primeira esposa, casou-se de papel passado com sua pequena. Assim viveram durante mais quinze anos, até a morte de Antenor, aos 64 anos, do coração.

Além da pensão da Marinha, dona Ceiça descobriu que herdara do marido uma quantia razoável em dinheiro, depositado secretamente numa poupança da Caixa Econômica Federal durante mais de vinte anos, Antenor, quem diria, era prevenido. Ela usou a bolada para realizar seu grande sonho - a compra da casa na Rua do Jogo da Bola. Em 1983, às vésperas de completar 50 anos, assinou a escritura. Poucas semanas depois, instalava-se em seu novo, e definitivo, endereço. Não foi simples a adaptação ao local. Embora ficasse a três minutos de caminhada, o outro lado do morro era um mundo à parte. De início, os vizinhos foram menos do que calorosos em sua acolhida. Dona Ceiça logo descobriu o porquê no dia em que sua filha Francisca resistiu às investidas amorosas de um rapaz da casa defronte. Pelo menos, disse-lhe rancoroso o moço desprezado, sua mãe não era uma puta da Praça Mauá. As velhas histórias seguiam-na, previsivelmente. Ela não experimentou tanto decepção quanto confirmação de suas certezas. Manteve a cabeça erguida, e não se deixou abater. Tinha sido prostituta, sim, e não tinha vergonha do passado. Vergonha era roubar e matar costumava dizer aos filhos. A história de dona Ceiça não era complicada, nem surpreendente. Nas mãos de Balzac, daria um romance. Nas mãos de Rogério, podia render umas boas falas. Surpreendente, para Ângela, era a disposição da velha senhora em revelar-lhe sua intimidade com tanto desprendimento. A medida que a tarde passava e sucediam-se as fotografias, as duas mulheres mergulhavam cada vez mais profundamente no tempo ido das boates e dos cabarés. Foi uma verdadeira surpresa para ambas quando soou a “Ave-Maria", oriunda dos alto-falantes da capela vizinha.

- Que música é essa?

- Toca todos os dias, às seis. Meu Deus, já são seis horas! Daqui a pouco, minha neta vai chegar do curso de inglês.

Assim dizendo, dona Ceiça ergueu-se da cadeira, dando por encerrada a entrevista. Ângela permaneceu imóvel por um instante, paralisada pela falta de direção. Fazia quatro horas que estava ali naquela casa, mas não sentia a mínima vontade de partir. O tempo passara tão depressa! Atravessou-lhe a cabeça um lampejo esdrúxulo de pedir para ficar mais um pouco. Chegou a ponderar o que haveria para o jantar. Dona Ceiça fitava-a com um olhar curioso. Será que a moça havia esquecido o caminho da porta? Via em seu rosto que parecia procurar alguma coisa, talvez aquilo que buscara havia pouco em sua pasta, sem sucesso.

- Está tudo bem, minha filha?

- Ah, sim, claro. Tudo bem...

Ângela ergueu-se apressadamente da cadeira, derrubando no chão um bolo de fotos. Ajoelhou-se para catá-las.

- Deixa isso aí, querida, depois eu apanho - disse a velha senhora, pousando a mão delicadamente sobre os cabelos da moça. A cabeça de Angela rendeu-se intuitivamente à carícia ofertada. "Querida." A palavra causou-lhe algo como um afago no coração e abrandou um pouco sua agitação. Ela terminou de recolher as fotografias e colocou-as de volta na mesa, com delicadeza. Reparando no cuidado do gesto da moça, dona Ceiça sorriu por dentro um sorriso suave. Os olhares das duas mulheres se encontraram num instante de cumplicidade. Os últimos acordes da “Ave-Maria" cessaram, devolvendo a casa ao seu silêncio acolhedor.

- Dona Ceiça...

- Sim, minha filha?

- A senhora se incomoda se eu vier aqui de novo essa semana?

- Para terminar a entrevista?

- É, também… - hesitou Ângela, emendando em seguida - mais para ver o resto das fotos.

A expressão dela tornara-se tímida, desprovida da arrogância inicial. Dona Ceiça permitiu que o sorriso interior lhe aflorasse nos lábios, com ternura maternal.

- Venha quando você quiser. Eu preparo outro refresco de caju, sem açúcar desta vez.